O que foi feito, o que ficou por fazer e o futuro

Foi há dez anos que abriram as portas de um Castelo de Porto de Mós renovado. Os acessos em betão às torres, colocados numa intervenção na década de 40 do século passado, foram substituídos por madeira e ferro. Nas aberturas das torres foram colocadas janelas, para impedir a entrada de água e humidade. Foram criadas casas de banho e feitas escavações que revelaram espaços, até aí desconhecidos.
José Ferreira, presidente da Câmara Municipal na altura, refere que o conjunto de trabalhos teve como primeiro objectivo "permitir uma melhor visitação". "Em segundo lugar, pretendia-se que o castelo fosse a sala de vistas do concelho e nesse espírito recebeu alguns momentos importantes, como a assinatura de contratos que permitiram obras importantes no concelho", recorda.
Para as obras de recuperação foram gastos cerca de 120 mil contos (600 mil euros). Setenta e cinco por cento do investimento foi comparticipado por fundos comunitários, 15 por cento do valor foi suportado pelo Programa de Reabilitação Urbana (Proseurb) e dez por cento do valor saiu dos cofres municipais.
À frente dos destinos da autarquia até 2005, José Ferreira recorda que durante esse período foram dinamizadas "actividades culturais das mais variadas expressões", dando cumprimento ao objectivo de tornar o castelo "um espaço vivo e activo". O ex-autarca destaca o mandato 2001-2005, que teve João Neto à frente do pelouro da Cultura. "Era um criativo por excelência e conseguiu organizar actividades interessantes", refere José Ferreira, que se mostra "satisfeito" pelo trabalho desenvolvido no castelo durante os seis anos de mandato.
"Tinha armas que achei que poderiam mudar Porto de Mós, desde que houvesse paciência", recorda João Neto, que introduziu uma programação cultural regular no castelo, durante os meses de Verão. Espectáculos ligeiros, para serem realizados ao ar livre, de baixo custo e o mais variados possível. Esta foi a linha escolhida pelo ex-vereador para animar as noites estivais do monumento. Durante quatro anos por ali passou a música, do popular à clássica, teatro, dança ou moda. "Começamos com 30 ou 40 pessoas, acabámos com um pouco mais, à volta de 50, mas começámos a notar que havia mais gente não residente em Porto de Mós", refere João Neto. "Se a política tivesse sido continuada, não sei se teria tido êxito, mas sabia que era preciso sofrer", recorda o ex-vereador, que aponta as boas condições do monumento, acústicas e de iluminação, para a realização de espectáculos ao ar livre. "É um castelo de bonecas e isso é bom para espectáculos. Era bom que houvesse mais animação no Verão", defende. Impulsionador dos jantares e feiras medievais, João Neto defende que seria uma aposta a manter. "É um produto caro, mas que traz gente. Se resulta noutros sítios, também daria em Porto de Mós", afirma.
Turismo na linha da frente
A partir de 2006, com a entrada de um novo executivo, a animação do castelo foi começando a seguir uma nova linha (ver: Cronologia).
Sem referir a estratégia para a animação cultural, Rui Neves destaca o ensaio de um serviço educativo que está a decorrer no monumento (ver. Castelo mostra-se às crianças). "É importante que quem visita tenha a máxima informação sobre a evolução e as figuras lendárias, como o Dom Fuas Roupinho", afirma.
A promoção turística do monumento está no centro das preocupações da autarquia. Rui Neves defende a criação de uma rota de visitação entre o castelo, Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, em São Jorge, e Mosteiro da Batalha. "Algumas excursões já fizeram este circuito e a tendência é criar uma rota do património que ligue os dois concelhos", refere rui Neves. Informação sobre os restaurantes do concelho e sobre a região são outras informações que irão estar disponíveis. "Não me interessa divulgar apenas o castelo, mas sim uma região", defende Rui Neves. Dentro da esfera de acção da autarquia, o vereador refere que em breve estarão peças de artesanato à venda no castelo, procurando divulgar a arte da olaria.
Em jeito de avaliação, Rui Neves admite que "há sempre coisas que podíamos ter melhorado", destacando a produção de documentação e informação. "São coisas que custam dinheiro e temos de fazer cálculos sobre o que se vai gastar, para investirmos bem e não nos arrependermos", afirma.
Em jeito de avaliação, Rui Neves admite que "há sempre coisas que podíamos ter melhorado", destacando a produção de documentação e informação. "São coisas que custam dinheiro e temos de fazer cálculos sobre o que se vai gastar, para investirmos bem e não nos arrependermos", afirma.
o nosso jornal tentou também recolher declarações do actual presidenta da autarquia, João Salgueiro, que remeteu qualquer esclarecimento para Rui Neves.
Regulamento em elaboração
Desde 2006 que a programação do castelo começou a sofrer alterações. O monumento tem recebido festas privadas. No ano passado, chegou mesmo a ser celebrado um casamento no castelo. Este ano, as exposições e o festival de tunas são os únicos eventos inseridos numa programação regular. Rui Neves, vereador da Cultura, afirma que existem outras solicitações, como a festa que está agendada para Setembro. O responsável pela Cultura admite a necessidade de regular a utilização do castelo. "Não podemos banalizar as instalações", refere Rui Neves. Para isso está na fase final de elaboração um regulamento de uso do monumento. O vereador refere que o documento está elaborado e será brevemente apresentado em reunião de executivo. O regulamento está apenas a aguardar a aprovação das taxas e tarifas da autarquia, documento que será apreciado amanhã, dia 30, na Assembleia Municipal.
José Ferreira considera que, no futuro, "o castelo deve retomar o caminho para que foi intervencionado", afirmando que o monumento "tem uma dignidade de espaço e memória que não é compatível com algumas actividades que se lá têm intervencionado".
Acessos e bar que não avançaram
A aposta de promoção turística do castelo tem esbarrado com o acesso ao monumento. Da altura da requalificação vem um projecto para permitir o acesso de autocarros ao sopé do morro, junto ao cemitério velho. O projecto passava pela criação de um acesso através da estrada que liga Porto de Mós e Fonte dos Marcos. Adormecido ficou também um projecto de intervenção paisagística no morro do monumento.
O projecto de recuperação resultou ainda na criação de um espaço, onde se pretendia por em funcionamento um bar de apoio ao castelo. A indefinição sobre a forma de concessão e o fraco interesse manifestado por privados acabaram por ditar que, dez anos depois, o bar continue encerrado e os visitantes não tenha possibilidade de adquirir uma simples garrafa de água durante a visita ao castelo.
Cronologia castelo
1999
Foi a 25 de Junho que foi aberto ao público um Castelo renovado. Um investimento de 120 mil contos (600 mil euros), que procurou manter os traços originais e corrigir algumas intervenções feitas na década de 40 do século passado. O acesso em betão às torres foi trocado pelo ferro e madeira. Foram introduzidas janelas, de forma a impedir a entrada de água nas torres e feitas algumas escavações revelando novos espaços do castelo. Uma abertura antecedida pela visita do secretário do Turismo, Vítor Neto, no dia 2 de Junho.
2000-2001
Os primeiros dois anos vão ser marcados pela realização de algumas exposições e espectáculos. Carlos Guilherme passa por lá em Junho de 2000, num espectáculo inserido nas Festas de S. Pedro.
Além da actividade cultural, pelo Castelo passam momentos marcantes na vida portomosense. O Presidente da República, Jorge Sampaio, encerra a visita de cinco dias ao distrito, em Março de 2000. No ano seguinte, o Castelo recebe a apresentação do I Prémio Nacional de Calçada à Portuguesa ou o 1.º Concurso de Arroz Doce de Porto de Mós, em Junho.
2002-2005
É entre 2002 e 2005 que o monumento vive os momentos de maior intensidade cultural. João Neto é o vereador neste período e lança eventos como o CastelArte ou o Castelo às Sextas, que vão animar o monumento durante os meses de Verão. Exposições, teatro, ballet, jazz, poesia, desfiles de moda ou música ligeira são os vários géneros que animam estes quatro anos. São também organizados jantares medievais e feiras medievais. Em Junho de 2004 é inaugurada a nova iluminação. Por um dia o Castelo "veste-se"de verde e vermelho, aproveitando a onda do Euro 2004.
A dinamização cultural do Castelo neste período é reconhecida pela Assembleia Municipal, que aprova um voto de louvor ao trabalho desenvolvido.
2006 – 2007
Com um novo executivo assiste-se a mudanças na calendarização das actividades culturais no monumento. Mantêm-se eventos como o Fitumis, CastelArte ou uma versão reduzida do Castelo às Sextas. Em 2006 realiza-se o “Chuva de Talentos”, com a participação de artistas naturais ou residentes no concelho.
2008-2009
O Festival Internacional de Tunas Mistas o CastelArte são os dois eventos com maior longevidade no Castelo, ambos contando com sete edições. A programação regular deu lugar, nestes últimos anos, a eventos pontuais que vão sendo realizados no Castelo. Em 2008 o monumento recebeu o Encontro da Ferrari Portugal, em Junho, um concerto do 5.º Estágio Internacional de Orquestra, em Julho, um encontro de Meditação pela Paz Mundial, em Outubro, e duas festas comemorativas do aniversário da Rádio Dom Fuas FM.
No ano passado, além do CastelArte e Fitumis, o espaço recebeu a festa “Summercastle”, em Setembro e uma festa da Rádio Dom Fuas, onde actuou o cantor Paulo Brissos. O Castelo foi ainda palco de um casamento, a 4 de Julho.
Olga Silvestre
Presidente da concelhia do PSD
O Futuro do castelo será: Criar um programa anual e um regulamento de utilização; Recriar a história animada da época áurea; Utilizar o espaço para actividades ou eventos que o dignifiquem; Torná-lo a nossa sala de espectáculos de Verão; Estabelecer parcerias e realizar exposições, tertúlias, tornar o castelo VIVO e com VIDA que valorize e divulgue a nossa terra; Dotá-lo de infra-estruturas que possibilitem a utilização e permanência dos visitantes, tal como serviço de cafetaria/restauração.
Porque promover o património é promover a cultura de um povo que fez a estória da nossa história, é ainda promover uma forte economia que emerge e que está esquecida.
É urgente olhar para o Castelo como uma fonte de receitas para o município e para o concelho e não apenas com um olhar contemplativo como quem olha para algo belo, mas inatingível.
Rui Neves
Presidente da concelhia do PS
O futuro do Castelo terá de passar por uma divulgação devida, em termos históricos, deste monumento que é único. Muitos municípios gostariam de ter a possibilidade de usufruir e ter ao dispor este monumento. Daí que deve ser feito tudo o que seja possível para a sua divulgação, porque a promoção do próprio concelho e da sua história, passa, forçosamente, por ali.
Acho que se deve continuar a insistir, de uma forma inconformista, lutando em defesa de tudo o que possa ser feito pela divulgação do concelho de Porto de Mós. Uma acção que passa, em grande medida, pelo castelo de Porto de Mós.
Filipe Rodrigues
Comissão Concelhia do PCP
A Comissão Concelhia de Porto de Mós do Partido Comunista Português considera que nos últimos anos pouco ou nada tem sido feito para dinamizar o património histórico do concelho, nomeadamente o castelo. Após a recuperação ainda se fizeram eventos, mas as actividades foram morrendo, inclusive na página da câmara na internet não encontramos nada que divulgue e promova o castelo.
Para o PCP o castelo não pode ser visto de forma isolada, deve ser visto de forma integrada, coerente, que harmonize todas as potencialidades turísticas do concelho. É necessária a elaboração de um roteiro turístico que integre o património natural do concelho, o castelo e o CIBA, criando uma rede de transportes para o efeito.
É necessário desenvolver uma política de desenvolvimento turístico que valorize o património humano, atenue a sazonalidade e contrarie o modelo de turismo de passagem e muito curta estadia.
Avelino Vitória Gomes
Porta-voz da Comissão Concelhia do CDS-PP
Tudo o que seja para dinamizar, desenvolver e dar a conhecer o castelo é bem-vindo. Essa acção, obviamente, inclui a organização de actividades culturais, como exposições, por exemplo. O castelo já recebeu eventos úteis, devem ser seguidas outras iniciativas.
Saul António Gomes
Professor Universitário e historiador
O Castelo tem um elevado significado histórico, artístico e patrimonial, em termos regionais e nacionais. Símbolo do passado, alma e identidade cultural dos portomosenses, a sua conservação e valorização têm de ser princípios fundamentais e prioritários da política cultural autárquica, quaisquer que sejam as forças políticas. No futuro, importa assegurar e reforçar a participação local competente na gestão do monumento, consolidar as condições de acessibilidade, segurança e comodidade para todos os que o visitam, promover o seu estudo e valorização quer de forma singular, quer integrado num circuito regional dos castelos medievais da Alta Estremadura. É importante reforçar a sua presença temática nas dinâmicas e programas das unidades de ensino concelhias e regionais e abri-lo, sem hesitações, a iniciativas de empreendedorismo cultural e turístico geradoras de riqueza e de criação de novas oportunidades de trabalho e emprego para jovens portomosenses.
António Almeida
Membro do Trupêgo – Grupo de Teatro
O castelo tem salas onde se poderiam colocar alguns objectos, instalando um mini museu, com objectos relacionados com o Castelo. O Museu Municipal existem achados arqueológicos que, se fossem bem estruturados, poderiam criar um espaço museológico no Castelo, o que o tornaria mais agradável ao visitante. Poderiam ser apreciados achados que as pessoas foram oferecendo e seria uma forma até de mais pessoas oferecem objectos. Uma outra ideia seria no Verão continuar com eventos culturais, que têm decaído, quer em qualidade, quer em quantidade. Nos anos seguintes à recuperação a Câmara Municipal investiu mais, agra a crise poderá não permitir gastar tanto. Mas para haver um reforço de eventos, estes não precisam, necessariamente, de ser caros, mas sim de melhor qualidade.
David Catarino
Presidente da Entidade Regional de Turismo Leiria-Fátima
As populações de vilas ou cidades que se formaram, ao longo de séculos, à volta do seu castelo, têm por estes monumentos um especial carinho e anseiam, não só por que sejam preservados, mas também que sejam visitados, isto é, que sejam motor do desenvolvimento turístico que gostariam de ver no seu concelho ou região.
Estas paixões são suscitadas nas pessoas, as mesmas que passam anos sem fazerem o esforço de visitar estes ou outros monumentos.
Cabe às autarquias o desenvolvimento de actividades culturais e de animação que integrem os castelos na vida dos aglomerados envolventes.
Cabe-nos a nós, Entidades Regionais de Turismo, a promoção deste património com a desejada animação.
Com este objectivo, a Entidade Regional de Turismo de Leiria-Fátima tem em elaboração o Roteiro do Património e o Roteiro do Santo Condestável, desejando que esta oferta turística possa ser usufruída por pessoas que viajam autonomamente ou em viagens organizadas pelos operadores turísticos.