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O REGRESSO DOS SEM-ABRIGO |
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Written by SN
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Quinta, 29 Abril 2010 |
Ao que parece as eleições, nas hostes cor-de-rosa, não correram lá muito bem. Miquelina, sempre atenta a estas coisas e bem coadjuvada pela Vanessa, já quase nua, aos primeiros raios de calor, não podia de deixar de comentar:
- Olha! A mim parece-me que os rosinhas só se endireitam quando o Super Bino for o chefe da concelhia e o Geadas voltar à escola. E tudo isto está mais perto de acontecer do que se julga.
À risada geral, a minha burra continuou, num rasgado sorriso:
- Seriam só vantagens! Primeiro o Bino ficaria com tudo para ir preparando a cama, às mais que evidentes ambições, de substituir o Salgueirinho, quando este bater as asas. Depois, o Geadas, poderia, nas calmas esperar, na escola, por uma reforma fixe… provavelmente a única reforma de que gostará.
Aqui, até a Vanessa ficou intrigada. Miquelina, ao ver as nossas caras de burro, esclareceu:
- É mais que evidente que têm de arranjar qualquer coisa para o homem das neves, e nada melhor que retomar o tachinho original. E ficava tudo numa boa. A Bel’Mira ficava com a cultura… e o Desporto ficaria entregue ao vindouro lá da serra, com a vantagem de poder dar uma ajuda, por dentro, à guerra dos ventos…
Miquelina, de garganta seca, saltou da cadeira, como se lhe tivessem beliscado o rabo. Que seria? Pensou a malta. Não se fez esperar a resposta:
-Na parição de semanas e de meses culturais, dando razão ao ditado de que não há fome que não dê em fartura, depois de ouvir o pouco menos que horrível hino a Porto de Mós, só generoso no tamanho… em que nem a rapaziada da banda e do coro, consegue dar brilho… Coisa feia! Ai a velhinha Serra de Aire e Candeeiros…
A minha burra parecia perdida, mas lá retomou o eito:
- Depois de ouvir o hino, dizia eu, um dos sem-abrigo, que bem quer regressar à ribalta política, explicou-me o brilhantismo da sinalética de trânsito que não proíbe a circulação automóvel na Praça da República e, mais que isso, confessou-me a existência de territórios independentes, na própria praça.
E por entre um sorridente suspiro, rematou:
- Há malta que considera os sítios brasonados como territórios independentes, por serem da sua freguesia, e, vai daí, estaciona lá em cima o seu carrinho… com a vantagem de os pingos de óleo irem colorindo a pedra negra e branca, que tece os desenhos, conferindo-lhe um ar mais modernaço. Bem fixe esta rebeldia no dia dos cravos deste Abril.
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Written by SN
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Quinta, 15 Abril 2010 |
Corria a noite de uma Terça-Feira nervosa, num dia de dito de azar, que bem pode virar sorte, em que o glorioso pretendia fazer a folha aos lagartos e aperaltar-se para limpar o campeonato. Um jogo meio treta durante muito tempo que fez de Miquelina uma quase besta. Nervosa.
De pouco valeu picar-lhe a língua. Resmungava apenas.
- Há coisas que intrigam a malta – dizia Vanessa.
A malta, no meio de uma fé benfiquista, quase nem ligava. Mas era preciso dizer qualquer coisa para desanuviar o ambiente, enquanto a ansiedade crescia. Miquelina roía os cascos, num nervosismo indisfarçável, e lá mordeu, mais para nos calar:
- A malta salgueirista, este ano, ainda começou mais cedo a preparação das festas de S. Pedro… e com muito mais preciosismo.
Lá marcou o Benfica um goleco, pelos pés do coxo Cardosão, e a coisa animou. Miquelina ficou mais fina:
- Como aquilo já está cheio de tralha, e para que a qualidade da feira das tascas pudesse manter-se na senda crescente do sucesso, resolveram fazer um pacote de dois em um, à boa maneira das grandes superfícies…
Entretanto, cai o segundo golo, do Aimarito, e a minha burra, de papo cheio, com mais um copo, atira autoritária:
- É absolutamente notável a visão daquela rapaziada. Ao construírem cinco barracas, em tijolo, junto ao sintético, resolveram, para já, não só os problemas dos balneários para dois conjuntos de duas equipas de futebol, mais equipa de arbitragem, como ainda deram início, paulatinamente, a um aldeamento turístico-gastronómico, capaz de albergar outros tantos restaurantes de prestígio portomosense, que potenciarão multidões de gaijada pelo ano inteiro, à boa maneira dos repastos de Junho, bastando, para isso, juntar, de vez em quando, um Quim Barreiros qualquer.
E já com o jogo resolvido, a favor do que é costume:
- E digam lá que não há por aqui talentos!
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Written by SN
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Quinta, 01 Abril 2010 |
Miquelina, a minha burra, anda toda eufórica com a possibilidade da malta poder vir a ter uma das maravilhas naturais de Portugal. E não é para menos, já que ser candidata já é absolutamente fantástico… Isto para além, claro está, de o nosso Glorioso estar a navegar de vento em popa para muitos êxitos… Mas é melhor tento na língua, não vá o diabo tecê-las. Não deixa, contudo, de andar, de certa forma, estranha… de tão pouca coisa haver para dizer mal, como tanto gosta. Até a Vanessa vai tendo muito pouco que fazer, como consultora política. Apesar do pouco trabalho, há sempre qualquer coisa para morder:
- A malta tem procurado mais, agora, as grutas de Mira de Aire… Bem podiam aproveitar este movimento extraordinário para promover as crateras das ruas 5 de Outubro e Mestre de Avis… Não nos faltam buracos… embora eu goste mais de minas e armadilhas…
Miquelina ia moendo uma palha mal cortada, ia espreitando todas as novelas, assim como que com um olho no apropriado burro e outro no cigano. E atirou mais uma ripada para o ar:
- Mas se a malta não ficar satisfeita pode dar uma saltada e ver as ruínas, de forte valor arqueológico, do saneamento de Mira de Aire ou, até mesmo, as perfurações paleolíticas da margem sul do rio Lena que, pela sua antiguidade, tem e devem ser acompanhadas, a passo e passo, pelo IGESPAR, retardando seriamente a obra.
E depois de uma gargalhada, como se tivesse descoberto a pólvora:
- E que tal investigar as secretárias dos governantes municipais, na busca de sábios buracos, abertos por firmes cotovelos, de tanto apoiarem aquelas cabeças brilhantes, esmagadas de tanto trabalho pensante no futuro portomosense…
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Written by SN
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Quinta, 18 Março 2010 |
Ora aqui está um desafio importante. Meio em jeito de brincadeira, Miquelina, a minha simpática burra, estava para ali a pensar alto:
- Era bem fixe, nesta época de sofrimentos quaresmais, arranjar uns castiguinhos, tipo penitências, para a gaijada que nos governa.
Vanessa, que estava por ali, não quis perder tão soberano desafi o à grande criatividade de Miquelina, e:
- Ninguém melhor que tu o fará. Venham daí as cacetadas.
A minha burra não se fez rogada e vai disto:
- Ao Salgueirinho ordenaria que percorresse, a nossa CREL, 1591 vezes de joelhos pelos dias que mentiu na prometida recuperação da fabulosa estrada que liga o Hotel que nunca mais acaba à casa dos pneus, ou então que não tivesse dito que uma semana depois da sua tomada de posse, em fi nados de 2005, tal rua estaria tratada à maneira. Ao Super Bino punha-o a contar todos os parafusos da câmara, mesmo os que já caíram de algumas cabeças, com recontagens sucessivas até acertar…
Serão milhares, ou talvez milhões… Mas como lhe apregoaram… um parafuso é um parafuso… Ao Geadas faria sentido, por pena, que fosse obrigado a construir, sem erros, o texto completo de “Os Lusíadas” com palavras e letras recolhidas da sua bíblia, “A Bola”.
Miquelina, já arejada com os ares primaveris que se aproximam e que lhe subiram, prontamente, a saia, continuou no desfile de penitências:
-À Bel’Mira, ainda à procura da razão porque ganhou a corrida da educação a um professor que já foi chefe de agrupamento escolar, cairia que nem uma luva, tal como aconteceu, em tempos idos em Peniche, ser obrigada a levar um balde cheio de água, para o açude do Rio Lena, junto ao parque verde que nem anda nem desanda, por cada pingo de água que tem caído nas salas das escolas municipais. E à Juncarita fi caria bem, contribuindo para a reconhecida elegância, que ostenta, passar um dia a pão e água por cada minuto que a sua menina dos olhos, lá para os lados da Anaia, está de portões fechados…
Miquelina estava visivelmente inspirada e respirava brilho pela plateia que a ouvia. Rematou à Di Maria:
- Se assim fosse, talvez as coisas lá para a Páscoa estivessem mais bonitas!
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